Os que observam de perto o cenário político em Brasília já estão habituados a um padrão: quando as tentativas golpistas ameaçam ofuscar a institucionalidade, o ministro Gilmar Mendes se arma com uma ironia cortante e desce ao plano da realidade, discursando de maneira fria e assertiva, como alguém que compreende profundamente os meandros do poder. Polêmica e alvo de aversão por diversos setores da política mais radical, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF) aproveitou uma conversa com jornalistas na capital federal para mais uma vez ilustrar a imensa diferença entre os gritos inflamados no palanque e a realidade vivida dentro do Congresso Nacional.
O tema central dessa vez é a obsessão da extrema direita, fervorosamente defendida por membros da ala bolsonarista, de transformar a eleição para o Senado em uma cruzada moralista voltada à cassação de ministros do STF motivada apenas por descontentamento ideológico. A ideia de destituir integrantes da alta corte se tornou uma bandeira eleitoral nas redes sociais, como se solicitar um impeachment fosse tão simples quanto aprovar uma homenagem de nome de rua.
Questionado sobre essa onda de candidaturas que prometem varrer o STF, Gilmar não hesitou. Com seu tom característico e sarcasmo afiado, ele reduziu essa barulhenta estratégia a um truque destinado a conquistar votos entre os eleitores mais exaltados. Para ele, todo esse alvoroço é um “equívoco compreensível”, pautado exclusivamente em cálculos eleitorais.
A política do espetáculo se revela em seu estado mais puro: fala-se aquilo que os militantes desejam ouvir, cientes de que o resultado final não corresponderá às promessas feitas no palanque. O magistrado destacou que “entre a ideia e a ação, há uma distância colossal”. Na prática, um candidato pode até ser eleito atacando a Suprema Corte, mas ao adentrar o Senado, geralmente enfrenta um choque com a realidade institucional que desarma até mesmo os mais destemidos.
A estocada decisiva veio acompanhada de uma metáfora perspicaz que resume bem a postura crítica que Gilmar sempre adotou frente aos excessos da extrema direita. Acostumado a décadas de crises políticas e ataques diretos, o decano ignorou qualquer insinuação de medo ou preocupação em relação ao clima eleitoral atual. Quando questionado sobre se as ameaças reais o intimidavam, respondeu prontamente:
“Eu sou um enfermeiro que já viu sangue. Então, não me impressionam essas promessas de campanha.”
Essa declaração soa como um alerta claro para aqueles que fazem bravatas: quem já enfrentou crises institucionais maiores não se deixará abalar por discursos vazios. Gilmar é ciente de que no drama político, o populismo reacionário muitas vezes flerta com o perigo; no entanto, o equilíbrio entre os Poderes tende a mitigar esses excessos.
Além de minimizar as ameaças de impeachment como meros folclores eleitorais, o decano aproveitou para reafirmar a robustez da democracia brasileira diante de quaisquer tentativas externas ou dúvidas sobre o sistema eleitoral. Ao ser indagado sobre as alegações da ala radical concernentes às urnas eletrônicas e potenciais pressões internacionais, ele ressaltou que as instituições brasileiras são firmes e que nosso sistema eleitoral possui respaldo atestado por organismos internacionais respeitáveis.
Ao final do encontro com os jornalistas, Gilmar Mendes conseguiu recolocar o debate nos trilhos racionais. Para aqueles que esperavam ver um STF acovardado diante das manobras eleitorais do bolsonarismo, sua resposta foi típica da casa: refinada na forma e devastadora no conteúdo, transmitindo a acidez de quem não tem tempo a perder com ilusões absurdas.




