A Caixa Econômica Federal financia publicações favoráveis a Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas através de um programa que remunera atletas e ex-atletas para promover o esporte, além das marcas da instituição nas plataformas digitais.
Participantes do Programa Ídolos do Atletismo Loterias Caixa têm utilizado as entregas relacionadas ao patrocínio para enaltecer Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Esta informação foi divulgada pelo jornalista Demétrio Vecchioli e confirmada pela Fórum.
Dentre os casos destacados, constam postagens do ex-velocista André Domingos com Jair e Flávio Bolsonaro, além de uma manifestação de apoio à candidatura presidencial do senador e elogios direcionados a Tarcísio. O campeão olímpico Joaquim Cruz também fez menção ao governador paulista em uma publicação que incluía referências à Caixa antes de a legenda ser modificada.
A coluna ainda revelou que os atletas são obrigados a realizar seis postagens mensais, enviar provas das entregas e aguardar a aprovação da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) para receberem seus pagamentos. A CBAt informou que não iria comentar sobre o assunto.
A partir da denúncia publicada, a Fórum investigou os portais oficiais da CBAt e da Caixa para entender a estrutura financeira subjacente ao programa. Os dados mostram que existem 28 contratos individuais com atletas e ex-atletas em 2026, além de dois contratos principais que, após um aditivo, totalizam atualmente R$ 110 milhões.
Remuneração por postagens pró-Bolsonaro e Tarcísio via CBAt
A conexão entre os atletas e a Caixa é mediada pela CBAt, que assina os contratos individuais, recebe as prestações de contas, supervisiona as publicações e aprova os pagamentos.
O Portal da Transparência da CBAt revela 28 contratos ativos em 2026 no âmbito do Programa Ídolos do Atletismo Loterias Caixa.
A lista inclui nomes renomados da modalidade, como Joaquim Cruz, Maurren Maggi, Claudinei Quirino, André Domingos, Sanderlei Parrela, Vicente Lenílson, Jadel Gregório, Zequinha Barbosa e Edson Luciano, além de atletas como Thiago Braz, Caio Bonfim e Darlan Romani.
Os contratos analisados pela Fórum, incluindo os de André Domingos, Joaquim Cruz, Maurren Maggi e Thiago Braz, seguem um padrão comum de obrigações, prestação de contas e remuneração.
Com 28 participantes obrigados a realizar pelo menos seis postagens por mês, o programa pode gerar até 168 publicações mensais nos perfis dos atletas e ex-atletas envolvidos.
Seis postagens mensais: requisitos para pagamento
Os contratos estipulam que as postagens devem ocorrer no feed principal do Instagram com uma frequência mínima de uma vez por semana. O perfil utilizado deve ser informado à CBAt para monitoramento durante todo o período do acordo.
É necessário também enviar prints das publicações juntamente com relatórios da plataforma contendo dados sobre alcance e engajamento. As postagens devem incluir as hashtags #caixa, #caixaesportes, #loteriascaixa, #loteriascaixaesportes, e #somosatletismo.
A inclusão obrigatória dos perfis da Caixa, das Loterias Caixa, do Caixa Esportes e da confederação é parte dos requisitos.
A liberação dos pagamentos está condicionada à apresentação dos comprovantes no sistema Fluig junto com a nota fiscal e documentos que garantam a regularidade da contratada.
Caso alguma obrigação não seja cumprida, há perda da parcela correspondente. Em caso de reincidência na infração, a CBAt se reserva o direito de rescindir o contrato.
A confederação tem explicitamente a responsabilidade de “acompanhar e supervisionar” todo o processo durante a vigência do contrato. Esse mecanismo já tinha sido destacado na reportagem ao revelar as postagens políticas relacionadas.
Poder financeiro do programa pode chegar a R$ 1,17 milhão
Os contratos analisados preveem duas parcelas iniciais no valor total de R$ 6 mil referente aos meses de janeiro e fevereiro seguidas por dez parcelas mensais no montante de R$ 3 mil cada.
Cada contrato pode atingir um total máximo de R$ 42 mil em 2026. Se esse mesmo cronograma financeiro for aplicado aos 28 contratos registrados pela CBAt, o gasto potencial do programa poderia alcançar R$ 1,176 milhão.
Esse valor representa o teto previsto nos contratos sem garantir que esse montante já tenha sido efetivamente desembolsado. A confirmação dos pagamentos realizados depende das notas fiscais apresentadas, das prestações aprovadas no Fluig e das ordens relevantes para pagamento.
Cabe ressaltar uma particularidade: embora grande parte dos contratos tenha sido firmada entre os dias 10 e 13 de março, as duas primeiras parcelas correspondem aos meses anteriores (janeiro e fevereiro), totalizando R$ 12 mil.
A exigência das seis publicações mensais começa apenas na parcela correspondente ao mês de março. A CBAt precisa esclarecer quais foram as contrapartidas justificando os pagamentos referentes aos meses anteriores à assinatura dos acordos.
Contratos entre Caixa e CBAt somam R$ 110 milhões
No Portal da Transparência das Contratações da Caixa foi possível identificar três registros relacionados ao CNPJ da CBAt no ciclo de patrocínio entre 2025-2028.
Dentre eles, dois estão ativos: os contratos nº 7604/2025 e nº 7593/2025. Um terceiro registro identificado como nº 7607/2025 está listado como “não assinado”.
O contrato nº 7604/2025 está vinculado ao processo nº 2012/2024 com um valor estipulado em R$ 70 milhões.
No caso do instrumento nº 7593/2025 relacionado ao processo nº 1794/2024 houve um primeiro acordo estabelecido por R$ 20 milhões, seguido por um aditivo semelhante que dobrou seu valor atual para R$ 40 milhões.
No total dos dois contratos ativos chega-se ao montante combinado de R$ 110 milhões.
A atualização desses valores contrasta com uma comunicação institucional realizada pela própria Caixa em novembro de 2025 que apresentava um investimento total estimado em R$ 90 milhões: sendo R$ 70 milhões oriundos das Loterias Caixa e R$ 20 milhões proveniente diretamente do banco público.
No entanto, conforme o portal indica agora, o segundo contrato teve sua quantia elevada para R$ 40 milhões após o aditivo firmado.
Dificuldades para acessar detalhes do contrato milionário
A reportagem não conseguiu acessar integralmente informações sobre o maior dos dois contratos mencionados anteriormente.
A partir desta terça-feira (28), a Fórum vem tentando acessar detalhes sobre o contrato nº 7593/2025 através da seção dedicada aos contratos assinados na página oficial da Caixa; entretanto, essa ficha referente ao acordo de R$ 40 milhões permanece inacessível.
This issue occurs solely with this specific contract among the two active agreements of the CBAt. The page for contract nº 7604/2025 opens without problemas permitindo visualizar informações como valor original; aditivos; vigência; entre outros dados relevantes.
No sistema digital associado ao contrato avaliado em R$70 milhões constam documentos como pareceres técnicos; manifestações do gestor operacional; autorizações; termos aditivos; além de outros documentos complementares. Apesar disso surgindo na tela apenas uma lista dessas informações não foi possível obter acesso à ficha completa desse contrato específico.
Status confidencial dos acordos milionários com a CBAt
No Portal da Transparência mantido pela CBAt constam os principais contratos com a Caixa classificados como “confidenciais”.
A página indica que esses acordos possuem cláusulas específicas impedindo a divulgação pública dos seus termos completos.
Isto resulta na não publicação integral dos contratos; anexos; planos detalhados sobre trabalho; divisão minuciosa dos recursos ou qualquer mecanismo relacionado à fiscalização na interação com o banco público.
A discrepância é notável: enquanto os 28 acordos individuais feitos com atletas são acessíveis para consulta pública; os instrumentos principais que somam R$110 milhões permanecem fora do alcance público geral.
Matriz de monitoramento aprovada pela CBAt
Cabe destacar que outro documento oficial revela discussões formais dentro da confederação sobre acompanhamento das entregas realizadas pelos atletas.
No dia 22 de fevereiro ocorreu uma aprovação pelo Conselho Administrativo da CBAt para apresentação proposta denominada “Matriz de Monitoramento Programa Ídolos”.
No entanto essa resolução não apresenta detalhes claros sobre sua composição nem critérios específicos relativos à supervisão; mas indica que havia uma estrutura planejada para monitorar todos os participantes antes mesmo da formalização dos contratos em questão em 2026.
A Caixa declarou anteriormente que não mantém vínculos diretos com os atletas ou ex-atletas envolvidos afirmando que cabe à CBAt garantir o cumprimento das contrapartidas estabelecidas nos acordos firmados.
A instituição também reforçou que não realiza ações promocionais ou patrocinadoras voltadas especificamente a apoiar ou beneficiar candidaturas políticas ou pré-candidaturas. Segundo informações repassadas pela Caixa essas publicações não representam posicionamentos institucionais da empresa.
A resposta da CBAt foi informando que não comentaria sobre essas questões específicas. André Domingos não respondeu às tentativas feitas para contato enquanto Joaquim Cruz residente nos Estados Unidos também não retornou mensagens enviadas via Instagram.
Neste contexto Flávio Bolsonaro já enfrenta investigações relacionadas à suposta propaganda eleitoral antecipada envolvendo também questões acerca da fiscalização deste programa financiado por recursos públicos.
Sendo assim documentos ainda pendentes podem esclarecer melhor essa situação são as prestações mensais fornecidas pelos atletas: estas devem evidenciar quais publicações foram feitas quem validou relatórios apresentados bem como quais pagamentos foram autorizados até agora.




