Reeleito em 2024 para comandar o maior orçamento municipal da América Latina, Ricardo Nunes (MDB) encerra o pleito sob uma densa cortina de fumaça, mas sua permanência no cargo não apaga um rastro documental inegável: inquéritos da Polícia Federal, derrotas judiciais contundentes e uma sucessão de denúncias de má gestão que atravessam sua trajetória.
O conjunto de vulnerabilidades vai muito além da retórica da disputa eleitoral, formando um complexo mosaico de 45 eixos de desgaste administrativo, político e legal.
Uma análise exaustiva e o cruzamento das matérias publicadas pela Fórum revelam uma administração que opera no limite da transparência, ancorada em um forte esquema de blindagem institucional pago com dinheiro público. Abaixo, detalhamos a anatomia desse mandato, da máfia das creches ao aparelhamento do aparato estatal , que, como pontuou o levantamento da Fórum, “acumula tantas suspeitas e tantas explicações pendentes”, que coloca sob xeque a própria governabilidade da capital paulista.
1. O caso Dark Horse/Master
Relatórios internos da Prefeitura de São Paulo registraram que técnicos da gestão Nunes (MDB) não conseguiam localizar havia mais de três meses o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG presidida por Karina Ferreira da Gama, também dona da produtora de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Mesmo após os alertas, a administração municipal manteve pagamentos e contratos com a entidade, segundo apuração da Agência Pública, em reportagem de Leonardo Fuhrmann.
O ICB não aparece apenas em um projeto isolado. A entidade é também a organização ligada ao contrato milionário do Wi-Fi Livre SP Comunidades, programa da Prefeitura que prevê a instalação de 5 mil pontos de internet em comunidades de baixa renda da capital.
Gestão Nunes foi alertada sobre problemas no ICB
Os relatórios citados pela Pública tratam do projeto “Colorindo Sonhos: da Superação ao Sucesso no Empreendedorismo de Maquiagem”, financiado com R$ 300 mil de emenda do vereador André Santos (Republicanos), aliado do prefeito. O termo de fomento aparece em página oficial da Prefeitura como TFM/137/2024/SMDHC/CPM.
Em janeiro de 2025, uma técnica da prefeitura foi ao endereço informado pela entidade, na avenida Paulista, e não encontrou ninguém do instituto no local. No relatório, ela afirmou que Karina respondia poucas vezes, de forma evasiva, e que havia necessidade urgente de manifestação da ONG sobre o local, os materiais e as mulheres que seriam beneficiadas pelo projeto.
Quatro meses depois, em nova vistoria, servidoras registraram que funcionários do edifício disseram que o ICB nunca havia funcionado no endereço indicado. O trecho mais grave do parecer resume a dificuldade de fiscalização:
“Não conseguimos localizar a OSC há mais de 3 meses”
Mesmo com os alertas, o contrato foi concluído em junho. Segundo a Pública, a Prefeitura afirmou que as atividades foram realizadas em Fábricas de Cultura e que fotos mostram apresentação da influenciadora e ex-BBB Marília Miranda para um grupo de sete alunas na unidade Parque Belém. Ao todo, o projeto teria atendido quatro turmas.
Contrato do Wi-Fi Livre colocou a ONG no centro da crise
O problema ganhou outra dimensão porque o Instituto Conhecer Brasil também foi contratado para atuar no Wi-Fi Livre SP Comunidades. No site da própria ONG, o ICB afirma que participa do projeto em parceria com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, por meio do edital 01/SMIT/2024 e do processo administrativo 2024.06.20.00002.
A Prefeitura também registra o instituto em sua página oficial de convênios e parcerias. O contrato, que supera R$ 100 milhões, prevê a instalação de milhares de pontos de internet em comunidades de baixa renda.
A Revista Fórum já havia mostrado que Karina Ferreira da Gama é o elo entre a produtora de Dark Horse e os contratos do ICB com a Prefeitura de São Paulo. A empresária preside a ONG e controla a Go Up Entertainment, empresa responsável pelo filme sobre Bolsonaro.
A oposição, através da bancada do PSOL, protocolou com urgência o pedido de CPI para investigar profundamente as relações entre o prefeito e os interesses financeiros do Banco Master.
As denúncias de que o banco seria peça chave em um esquema de movimentações financeiras com doações de campanha exigiam uma investigação profunda que a prefeitura, por todos os meios, buscou inviabilizar.
A Máfia das Creches e o cerco da Polícia Federal por lavagem de dinheiro
O epicentro das vulnerabilidades jurídicas do prefeito envolve o desvio sistemático de recursos da educação infantil, um esquema que sangrou os cofres municipais. Desde o início de seu mandato herdado, Ricardo Nunes foi investigado por suspeita de lavagem de dinheiro destinado a creches conveniadas. A apuração ganhou contornos graves com o avanço da inteligência policial, fazendo com que Nunes se tornasse alvo formal da Polícia Federal, que passou a rastrear o fluxo financeiro entre as entidades e pessoas ligadas ao poder municipal.
A situação atingiu um ponto crítico e insustentável quando uma mulher, também investigada pela PF, acusou formalmente o prefeito de receber parte do dinheiro desviado do esquema. O caso foi arquivado em 2025 pelo TRF de São Paulo.
Mídia paga na Folha, influenciadores e Abuso de Poder Econômico
Nunes abriu os cofres para a comunicação institucional, borrando de forma perigosa a fronteira ética entre publicidade pública e jornalismo independente. Documentos apontaram que a Folha de S.Paulo recebeu R$ 3 milhões para tecer elogios à gestão, com a agravante de haver recibos comprovando a compra direta e transacional de matérias.
O Estadão captou contatos de WhatsApp de leitores via publicidade disfarçada, e o jornal O Globo também manteve contratos milionários de propaganda.
Visando as urnas e a capilaridade na periferia, a gestão injetou assustadores R$ 16,5 milhões em pequenos jornais de bairro em pleno ano eleitoral.
O volume de recursos foi tão desproporcional que motivou denúncias formais no Ministério Público por abuso de poder econômico.
A farra publicitária alcançou até o mundo das celebridades, com a Secretaria de Comunicação (Secom) usando o dinheiro do contribuinte para pagar R$ 837 mil ao influenciador Leo Dias, desvirtuando completamente a finalidade da comunicação pública.
Obras sem licitação, suspeita de conluio e a Ciclopassarela de R$ 46 milhões
O Tribunal de Contas do Município (TCM), órgão responsável por fiscalizar a prefeitura, emitiu alertas graves de que as obras sem licitação explodiram na gestão Nunes.
A oposição na Câmara exigiu a instalação de uma CPI, levando o TCM a abrir uma frente de investigação sobre um possível conluio de empresas que estariam se beneficiando da maquiagem de “obras emergenciais” para burlar a concorrência legal.
O símbolo destes movimentos foi a ciclopassarela de R$ 46 milhões recém-inaugurada que simplesmente desabou na primeira chuva forte.
Além das grandes obras, a lista de contratos obscuros e sem licitação revela conexões políticas: a prefeitura destinou R$ 183 mil para um curso no instituto do ministro do STF, André Mendonça, e repassou absurdos R$ 4,4 milhões para a empresa do padrinho de sua própria filha, levantando suspeitas imediatas de favorecimento e improbidade.
Caos climático: Os apagões da Enel, enchentes e o colapso da zeladoria
Ao longo do mandato de Nunes, São Paulo mergulhou repetidas vezes nas trevas, evidenciando falhas gravíssimas tanto da concessionária Enel quanto da zeladoria urbana municipal (poda de árvores, limpeza de bueiros e atuação da Defesa Civil).
A dimensão do descaso foi atestada por dados meteorológicos que confirmaram o inaceitável: houve mais paulistanos sem luz do que moradores da Flórida atingidos diretamente por um furacão de grande escala. Em meio ao jogo de empurra de responsabilidades, até mesmo o advogado da Enel zombou da prefeitura, comparando Nunes a um “marido traído que culpa o sofá”.
A falta de prevenção estrutural resultou em tragédias fatais. Enquanto as chuvas causavam a destruição e o desabamento de Unidades Básicas de Saúde (UBS), a lentidão reativa da prefeitura custava vidas.
Nunes foi flagrado determinando a realização de obras de contenção apenas um dia após idosos morrerem afogados em uma enxurrada, operando a cidade no modo “apaga-incêndio” midiático, sem planejamento de resiliência climática.
“Eu sou casada com bandido. Vou chamar o PCC”, teria dito esposa de Ricardo Nunes
Em 2014, Ronaldo e Andrea Nunes, dois residentes de um condomínio no Jardim Marajoara, em São Paulo, apresentaram uma queixa ao síndico sobre um carro mal estacionado na garagem.
O veículo em questão pertencia a Regina Carnovale, esposa de Ricardo Nunes, o atual prefeito de São Paulo. O incidente evoluiu para um conflito e resultou no registro de um boletim de ocorrência no 11º Distrito Policial.
O síndico convocou os reclamantes e Regina para uma reunião no térreo do edifício, que culminou em uma briga intensa. A atual primeira-dama afirmou ter sido agredida por Ronaldo, o que foi negado por ele.
Entretanto, uma frase dita por Carnovale no relato de Andrea Nunes chama a atenção. “Eu sou casada com bandido. Você não sabe quem eu sou. Vou chamar o PCC e você está morto”, disse a atual primeira-dama, segundo o relato do Boletim de Ocorrência.
Logo em seguida, conforme três relatos registrados no B.O., Regina agrediu Andrea com um tapa no rosto.
Regina alegou não se lembrar da situação. “Na verdade, eu já até esqueci disso, está bem enterrado”, declarou à Folha de S. Paulo.
Ricardo Nunes estava em seu primeiro mandato como vereador na capital paulista.
Nas últimas semanas, uma investigação revelou conexões entre duas empresas de ônibus que operam o transporte público na capital paulista – a Transwolff e a Upbus – e o PCC.
Ricardo Nunes alegou que não era responsabilidade da prefeitura verificar se determinadas empresas possuem ligações com o crime organizado.
Em nota, a família Nunes afirmou que “Regina nega veementemente a referida alegação reproduzida pelo jornal [Folha de São Paulo], a partir de um documento contraditório, com quatro versões diferentes. Não houve desdobramento e nem comprovação. Nessa divulgação, existe somente jogo eleitoral rasteiro”.
As sombras do PCC e o cofre blindado do prefeito
O emedebista passou o processo eleitoral acossado por graves suspeitas de infiltração do crime organizado em seu círculo político e administrativo.
Reportagens investigativas revelaram que o ex-cunhado de Marcola, líder máximo do PCC, atuou livremente como chefe de gabinete na gestão Nunes, chegando a virar alvo de inquérito formal por suposta coação de votos a favor da reeleição.
Ao ser questionado sobre essas ligações por profissionais de imprensa, o prefeito perdeu o decoro, surtou ao vivo e ameaçou jornalistas.
A tensão aumentou quando se descobriu que um acionista de um banco suspeito de lavar dinheiro para a facção foi doador de sua campanha.
Encurralado nos debates, Nunes recusou-se enérgica e desesperadamente a abrir seu sigilo bancário.
O Saldo Trágico das Privatizações: Cemitérios, escolas e a Sabesp
A política de conceder direitos fundamentais ao mercado privado transformou o luto em um negócio extorsivo.
Comprovando que as falhas eram um projeto recompensado, Nunes manobrou a administração e “premiou” a servidora afastada desse processo com um salário de R$ 20 mil mensais.
Alinhado a Tarcísio de Freitas, o prefeito avalizou a venda da Sabesp. Frente às críticas, Ricardo Nunes simplesmente desqualificou e ignorou a total rejeição popular aferida em pesquisas sobre a privatização da água, chegando ao ponto de fugir correndo de cidadãos que faziam cobranças legítimas nas ruas.
A sanha privatista tentou avançar sobre a Educação, sendo barrada temporariamente quando a Justiça impôs um prazo de 5 dias para o prefeito explicar seus planos de privatizar escolas municipais.
Saúde em colapso: filas invisíveis, ignorância médica e o cerco ao aborto legal
A gestão de saúde sob Ricardo Nunes foi atravessada por sucateamento material e violenta interferência ideológica. O prefeito tentou impedir o atendimento do SUS a vítimas de violência sexual, suspendendo o serviço até que a Justiça impôs uma dura derrota, obrigando a retomada imediata do aborto legal nos hospitais paulistanos, sob ameaça de uma multa de R$ 10 milhões cobrada pelo MP.
A equipe de Ricardo Nunes aprovou e lançou uma campanha afirmando de forma absurda que a obesidade em mulheres seria fator de risco para o câncer de próstata.
Paralelamente, o prefeito tratou com frieza a dor da população ao minimizar as humilhantes e intermináveis filas por exames como sendo algo “normal do dia a dia”, demonstrando desconexão com a realidade da periferia.
Educação precária, falta de merenda e o veto político ao Padre Júlio
Enquanto a prefeitura acumulava bilhões em um caixa intocável e torrava fortunas em propaganda, a rede municipal de ensino sofria privações indignas.
Em 2023, as escolas da cidade mais rica da América Latina ficaram escandalosamente sem feijão na merenda escolar, afetando o desenvolvimento de milhares de crianças.
Além do descaso material, a prefeitura usou o setor educacional como ferramenta de perseguição política, demonstrada quando o Padre Júlio Lancellotti foi convidado e, logo em seguida, vetado nominalmente por Ricardo Nunes de participar de um congresso de Educação.
O muro da Cracolândia e o PL da Fome
A abordagem da gestão Nunes para a população vulnerável priorizou a repressão visual ao acolhimento humanizado.
O auge do autoritarismo urbano foi a absurda iniciativa da prefeitura de tentar construir um muro de 40 metros para confinar, isolar e esconder os usuários da Cracolândia.
O higienismo se tornou política pública efetiva com o avanço do famigerado “PL da Fome”, articulado quando Ricardo Nunes comandou a bancada governista para aprovar o projeto que aplicava multas a cidadãos e ONGs que doassem comida.
Para agravar a omissão, a gestão foi denunciada por falhar cruelmente na distribuição de cobertores para a população de rua nas noites mais frias do ano.
A GCM de Nunes, violência e extorsão
O prefeito empenhou-se em transformar a Guarda Civil Metropolitana (GCM) numa força repressiva com ares de milícia urbana.
O próprio Ricardo Nunes sinalizou aprovação a essa truculência ao ser flagrado cantando e dançando ao lado de oficiais ao som de “gás de pimenta na cara dos vagabundos”.
O endosso institucional gerou barbárie nas ruas: GCMs foram gravados espancando implacavelmente um homem em situação de rua que já se encontrava algemado.
As denúncias contra a corporação escalaram, com guardas sendo acusados formalmente de extorquir comerciantes vulneráveis na região da Cracolândia.
A cultura sob ataque: demolições, exclusão e censura ideológica
O patrimônio cultural e artístico de São Paulo sofreu perdas irreparáveis sob a caneta de Ricardo Nunes. Agindo na surdina e sem qualquer aviso prévio, a gestão municipal demoliu sumariamente o histórico Teatro Ventoforte e uma escola de capoeira.
A perseguição a espaços independentes continuou com a truculenta ordem de despejo dada ao Teatro de Contêiner.
O aparelhamento ideológico também se fez presente: o prefeito tentou censurar administrativamente a feira literária independente Flipei e precisou ser enquadrado pelo judiciário, que ordenou a imediata reintegração de projetos culturais da periferia que haviam sido excluídos de forma arbitrária da Lei Paulo Gustavo.
Caos na Mobilidade: Cortes bilionários, ataques a ônibus e judicialização da tarifa
A gestão Ricardo Nunes atuou diretamente contra a modernização do transporte público da capital. Em uma canetada, o prefeito retirou mais de R$ 1 bilhão da verba que seria destinada à construção de novos corredores de ônibus, estrangulando a locomoção da periferia ao centro.
Paralelamente, tentou impor sacrifícios à população, enfrentando pesadas ações judiciais que tentaram barrar a aprovação da abusiva tarifa de R$ 5, valor que a gestão não conseguiu justificar tecnicamente quando questionada pelos tribunais.
A explosão da dívida e o aumento do próprio salário
O discurso de austeridade fiscal de Ricardo Nunes é desmentido pelos números frios da contabilidade. Foi sob sua administração que a dívida da cidade de São Paulo explodiu para assustadores R$ 51,2 bilhões.
Ao mesmo tempo em que engessava investimentos sociais alegando falta de verbas, Nunes operava legislando em causa própria: aprovou, sem nenhum pudor, um salto estratosférico de 46,6% no seu próprio salário, enquanto humilhava a categoria dos professores da rede municipal oferecendo a eles apenas 2% de reajuste salarial.
Fraudes na política habitacional e o uso eleitoral criminoso da máquina
A política habitacional, uma das pastas mais críticas em uma cidade desigual, tornou-se caso de polícia. O Ministério Público denunciou criminalmente a gestão Nunes à Justiça por fortes suspeitas de fraude sistêmica nos programas de habitação.
A falta de escrúpulos com a dor dos sem-teto ficou evidente quando secretários do governo foram flagrados usando as cerimônias de entrega de chaves de moradias populares para realizar campanha eleitoral escancarada e antecipada.
Denúncia na ONU e o sítio em área de preservação
A negligência ambiental de São Paulo virou pauta internacional. O caos completo no processamento de resíduos fez com que Ricardo Nunes fosse formalmente denunciado na ONU por omissão na coleta de lixo e grave degradação ambiental.
A hipocrisia na defesa do meio ambiente, no entanto, começa dentro de casa: reportagens investigativas revelaram que o próprio prefeito mantém um sítio com construções irregulares erguido dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA) na zona sul da capital, demonstrando que as leis de zoneamento aplicadas aos cidadãos não valem para o chefe do executivo.
Balcão de patrocínios: Igreja Lagoinha, eventos e Carnaval terceirizado
A prefeitura de São Paulo sob Ricardo Nunes funcionou, em diversas ocasiões, como um canal de transferência direta de recursos públicos para entidades com alinhamento ideológico e político ao bolsonarismo.
Um dos exemplos mais claros foi o repasse de R$ 4 milhões para um evento da Igreja Lagoinha (ligada à família Valadão), realizado sem a devida transparência e justificativa de interesse público. A indignação aumentou quando a prefeitura aumentou os valores destinados ao evento sem qualquer suporte técnico, em uma prática que a oposição classificou como “balcão de negócios” com a fé.
No Carnaval, a gestão foi alvo de uma denúncia contundente após o caos logístico, com vereadores acionando o Ministério Público para investigar o uso de “laranjas” na terceirização da festa, sugerindo uma teia complexa de corrupção nos contratos do evento que deveria ser, essencialmente, popular e transparente.
Tiros para o alto e B.O “forjado”
Diferente de controvérsias estritamente políticas, os episódios do passado de Nunes que retornaram durante a campanha revelam um padrão de comportamento que desafia a liturgia do cargo.
O caso mais severo envolve o Boletim de Ocorrência feito pela própria esposa relatando violência doméstica e ameaça; quando a informação veio a público, Nunes mentiu abertamente em rede nacional, rotulando o documento policial como “forjado”.
Depois, a defesa do prefeito entrou em contradição bizarra ao criar a narrativa de que Nunes teria sido a vítima de agressão pela parceira em um BO posterior.
Além disso, a sua trajetória é marcada por um episódio em que foi acusado de disparar uma arma de fogo em uma boate — um evento que, dada a sua relevância, deveria ter sido explicado com clareza, mas que, na prática, foi tratado com silêncio e desqualificação dos veículos de imprensa que o trouxeram à tona.
O estranho vice
A escolha de Mello Araújo para a vice-prefeitura não foi apenas uma decisão estratégica eleitoral, mas um aceno direto à ala mais radical do bolsonarismo e à militarização das políticas públicas.
A gestão Nunes tratou a biografia de seu vice como um segredo de Estado, utilizando o poder da máquina para evitar o escrutínio sobre sua conduta profissional pregressa.
O fato de que a Polícia Militar tenha imposto um sigilo de 100 anos sobre processos disciplinares do coronel não apenas levanta suspeitas sobre o que está sendo escondido, mas também demonstra como a estrutura da prefeitura foi usada para blindar aliados políticos contra a transparência, negando à sociedade o direito de saber quem são as pessoas que ocupam os cargos de comando na cidade.
Acusação da máquina como comitê de campanha
A transformação da Prefeitura de São Paulo em um gigantesco comitê de campanha eleitoral foi documentada por diversas vias.
O PSOL formalizou junto ao Ministério Público uma denúncia detalhada sobre o abuso de poder, onde eventos públicos de inauguração eram transformados em palanques.
O assédio ao funcionalismo público foi um pilar da gestão: imagens flagraram o transporte forçado de servidores para comícios, uma prática que viola o princípio da impessoalidade e fere a dignidade dos trabalhadores, transformando a função pública em mera ferramenta de manutenção de poder político.
Desinformação e acusação de crime eleitoral
Nunes não mediu consequências ao utilizar a desinformação como estratégia política. A campanha foi marcada por episódios onde a própria coligação, com o aval ou silêncio da candidatura, distribuiu fake news sobre a ministra Anielle Franco para criar um clima de revolta artificial.
O comportamento reincidente levou a Justiça Eleitoral a derrubar propagandas falsas, mas isso não impediu que, no dia da votação, grupos ligados ao prefeito cometessem o crime explícito de boca de urna, ferindo a lisura do pleito eleitoral à luz do dia.
Fuga de debates
A fuga sistemática de debates televisivos no segundo turno revelou um prefeito que não se considerava apto a enfrentar o contraditório.
Ao fugir de debates fundamentais, como o realizado pelo SBT, Nunes não apenas desrespeitou o eleitorado, mas admitiu a sua incapacidade técnica e política de defender seu próprio legado. O resultado foi a transformação desses debates em sabatinas exclusivas para o adversário, onde a “cadeira vazia” de Nunes tornava-se o símbolo maior de um governo que preferia a ocultação à prestação de contas.
GCM contra aliados de Marta
O rompimento político com Marta Suplicy — que saiu da gestão Nunes para apoiar o candidato Guilherme Boulos em 2024 — não foi apenas uma divergência de ideias, mas o início de uma perseguição institucional dentro da prefeitura.
Assim que a ex-prefeita oficializou sua saída para compor a chapa adversária, Nunes ordenou uma limpa em cargos comissionados e servidores técnicos que mantinham proximidade com ela.
A Guarda Civil Metropolitana foi usada como braço executor dessa vingança política, retirando servidores de seus postos de trabalho de forma humilhante, transformando a gestão da máquina pública em um acerto de contas pessoal e mesquinho.
A fé como balcão de negócios eleitorais
Sob a gestão Nunes, a prefeitura de SP atuou como um extensão de pautas conservadoras e religiosas que ferem a laicidade do Estado.
O apoio oficial a projetos que pregavam a abstinência sexual como método oficial ignorou todas as orientações da ciência e dos órgãos de saúde pública.
A mistura de religião com gestão atingiu o paroxismo na véspera das eleições, quando igrejas foram transformadas em comitês eleitorais, com padres e pastores usando o altar para pedir votos, em flagrante desrespeito ao limite entre a fé e o exercício do poder político.
Sabotagem de CPIs: A bancada que blinda o prefeito
A Câmara Municipal de São Paulo, sob o comando da base aliada de Nunes, tornou-se um refúgio contra qualquer tentativa de fiscalização.
A bancada governista utilizou táticas de obstrução para impedir o funcionamento de CPIs, engavetando pedidos de investigação sobre contratos, desvios e negligências.
A manobra política foi tão obscura que a Justiça precisou intervir, prorrogando prazos para impedir que Nunes conseguisse, de forma definitiva, inviabilizar a investigação de suas contas e de seus atos administrativos.
Escândalo da água superfaturada no Carnaval
O Ministério Público iniciou apurações sobre o possível superfaturamento na compra de insumos básicos para eventos organizados pela prefeitura. O caso da água comprada a R$ 5 por unidade para trabalhadores no Carnaval é um exemplo.
Enriquecimento “misterioso” e a trajetória do jornal de bairro
O patrimônio declarado por Ricardo Nunes, que saltou significativamente ao longo de sua trajetória política, tornou-se objeto de investigações sobre a origem real de seus recursos.
A oposição questionou de forma incisiva como um pequeno jornal de bairro, operado pelo então vereador, poderia ter sido a fonte de tanta riqueza.
A matemática financeira por trás do enriquecimento de Ricardo Nunes permanece uma das questões mais mal resolvidas de sua biografia, exigindo uma investigação que os órgãos de controle, por vezes, evitaram aprofundar sob pressão política.
Os ataques verbais do vice como cortina de fumaça
O coronel Mello Araújo cumpriu papel essencial no plano de voo de Ricardo Nunes: o papel do atacante que distrai a plateia. Em diversos momentos, o vice-prefeito, um bolsonarista de carteirinha, promoveu ataques gratuitos e verbais ao Padre Júlio Lancellotti, uma estratégia que servia para mobilizar a base mais reacionária.
O repetido ataque público ao padre nas ruas era o sinal de que a chapa não estava interessada em gestão ou em diálogo com a pobreza, mas sim em incitar o ódio como forma de organizar seu próprio eleitorado diante da crise de identidade da prefeitura.
Os R$ 69 milhões perdidos na cultura
A gestão de verbas culturais na administração Nunes beirou a sabotagem administrativa por absoluta inaptidão operacional. A incapacidade de coordenar editais e cumprir prazos básicos da Lei Paulo Gustavo colocou a cidade em situação vexatória.
O dossiê aponta que São Paulo esteve na iminência real de perder R$ 69 milhões destinados ao setor cultural por pura inépcia da Secretaria Municipal de Cultura. O caso é emblemático: enquanto a gestão perseguia espaços artísticos independentes, falhava miseravelmente em operacionalizar recursos públicos que deveriam fomentar a cena cultural periférica, demonstrando que a exclusão de projetos não era apenas ideológica, mas fruto de um desleixo administrativo sistêmico.
Negacionismo climático e o uso de teorias conspiratórias
Diante da total ausência de um plano de zeladoria urbana para enfrentar a crise climática — evidenciada por enchentes recorrentes e apagões que paralisaram a cidade — o ecossistema de apoio a Ricardo Nunes recorreu ao esgoto da desinformação para isentá-lo.
Em meio ao desastre que castigava a população, a base aliada tentou pautar o debate com teorias conspiratórias sobre antenas HAARP (supostamente controladoras do clima). Essa manobra serviu como cortina de fumaça para esconder que, na prática, a prefeitura havia abandonado a poda de árvores e a limpeza de bueiros, tornando as chuvas em São Paulo um desastre anunciado pela inação proposital.
Submissão a Bolsonaro e o papel de “plano B”
A relação entre Nunes e Jair Bolsonaro foi marcada por uma sucessão de humilhações públicas que o prefeito aceitou para garantir seu projeto de poder.
Bolsonaro, em diversos momentos, rifou Nunes publicamente para elogiar Pablo Marçal, tratando-o como um acessório descartável. Ricardo Nunes respondeu com servidão, chegando a defender o ex-presidente inelegível de forma servil, mesmo quando Bolsonaro flertava abertamente com o rompimento das instituições e o descumprimento de medidas judiciais, revelando que o alinhamento de Nunes com o bolsonarismo era incondicional, independentemente das crises criadas pelo ex-presidente.
A fake news do “salve” e intervenção do STF
O segundo turno de 2024 foi marcado por um crime eleitoral institucionalizado. O governador Tarcísio de Freitas utilizou dados de inteligência do Estado de forma ilegal para espalhar a mentira de um suposto “salve” do PCC contra Boulos.
A gravidade foi tamanha que o ministro Flávio Dino interveio do STF para classificar a fala como criminosa.
Esse episódio gerou pedidos formais de cassação da chapa Nunes-Mello Araújo por abuso de poder, provando que a gestão não recuou diante de qualquer limite legal para manter o controle da prefeitura.
Palco para Michelle Bolsonaro: o aparelhamento do Theatro Municipal
Enquanto a prefeitura agia para desqualificar a comunidade LGBTQIA+ ao retirar homenagens do Theatro Municipal, o espaço era utilizado para fins privados da extrema-direita.
A gestão foi alvo de ação na Justiça por ceder o equipamento público para homenagear Michelle Bolsonaro, num claro exemplo de privatização ideológica de um patrimônio cultural da cidade, subvertendo a função pública do teatro para transformá-lo em comitê ideológico.
Apropriação do SUS: UPA como depósito de material de campanha
O limite ético foi atropelado quando a equipe de campanha de Ricardo Nunes transformou uma UPA municipal em um depósito de banners eleitorais.
O flagrante não deixou dúvidas sobre a promiscuidade entre o atendimento de saúde da população e o marketing político do prefeito, gerando processo por abuso de poder e demonstrando que, para o gestor, a infraestrutura pública é um recurso de uso privado.
Amadorismo no Carnaval e o caos logístico dos blocos
Além da farra de compras, o prefeito simplesmente autorizou a saída de dois megablocos no mesmo local e horário, gerando pânico logístico e caos entre os foliões, ignorando protocolos básicos de segurança.
A decisão refletiu um padrão de gestão que, ao buscar o brilho midiático, falha nos procedimentos básicos de logística, colocando em risco a segurança física de milhares de paulistanos apenas para garantir a foto do evento nas redes sociais.
Negacionismo na Pandemia: O regabofe da Bispa Sônia sem máscara
No auge da mortandade global, Nunes rasgou as normas sanitárias de sua própria Secretaria de Saúde e participou de um “regabofe” negacionista da Bispa Sônia sem o uso de máscara, desrespeitando as diretrizes de saúde do município que ele mesmo assinou.
O episódio simbolizou a elite política que exigia sacrifícios da população enquanto se considerava acima das próprias regras sanitárias que impostas à sociedade.
O “Largo da Batata Ruffles”
A gestão Ricardo Nunes tentou vender a própria identidade da cidade, forçando o Ministério Público a interferir para tentar barrar a patética venda do espaço público no caso do Largo da Batata Ruffles.
A medida, que pretendia transformar uma área histórica em outdoor de marca de salgadinho, revelou uma gestão que não possui qualquer apreço pelo patrimônio público, enxergando em cada centímetro da cidade uma oportunidade de mercantilização barata.
Postes perdidos e apelo de Ana Maria Braga
As obras mal feitas de asfalto deixaram postes perdidos no meio da rua e forçaram comunicadoras outrora isentas, como Ana Maria Braga, a cobrarem socorro de Ricardo Nunes após a destruição provocada pela chuva.
A repercussão do caso escancarou a falência total da zeladoria, que não conseguia resolver problemas básicos, mesmo quando cobrada por figuras de alta exposição midiática.
Ônibus atacados e o silêncio do prefeito
A segurança dos transportes falhou gravemente. Com a população sendo alvo de ataques aos ônibus enquanto o prefeito se silenciou sem oferecer qualquer resposta firme de inteligência, ficou patente o abandono da segurança pública no sistema de mobilidade da cidade, tratando a vida dos usuários como uma variável de segunda importância frente ao lucro das empresas de transporte.
Os “Sete Erros” técnicos da tarifa de ônibus
A falta de transparência sobre o cálculo da tarifa do transporte evidenciou a incapacidade de diálogo da gestão.
Em uma análise técnica contundente, colunistas apontaram os 7 erros capitais que deixavam claro que Ricardo Nunes iria aumentar a passagem, o que culminou na incapacidade do prefeito de justificar juridicamente as cobranças à sociedade.
O aumento, que sobrecarregou o trabalhador paulistano, foi mantido não por necessidade técnica, mas por uma política de transferência de recursos para as empresas de ônibus, blindada pela falta de transparência da prefeitura.




