Edson Braga defende que indústria de alimentos repense o que merece ser produzido

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Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos afirma que eficiência, automação e inteligência artificial precisam estar subordinadas à qualidade e ao propósito do produtoA indústria de…

Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos afirma que eficiência, automação e inteligência artificial precisam estar subordinadas à qualidade e ao propósito do produto

A indústria de alimentos avançou nas últimas décadas em produtividade, automação, controle de custos e uso de dados. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, porém, o próximo passo exige uma pergunta anterior à eficiência: o produto que está sendo fabricado realmente merece ser multiplicado em larga escala?

Na avaliação do empresário, fábricas são extremamente eficientes em repetir processos. Engenheiros podem aumentar rendimento, equipes de compras reduzir custos, sistemas de inteligência artificial identificar oportunidades e linhas automatizadas elevar a produtividade. O risco aparece quando toda essa capacidade é direcionada para produzir, de maneira cada vez mais eficiente, algo que pouco evoluiu em qualidade.

Eficiência não define sozinha a direção

Indicadores como produtividade, rendimento, custo por quilo, consumo de energia e desempenho de equipamentos continuam fundamentais para a competitividade industrial.

O problema está em utilizar esses números sem questionar o objetivo final.

Uma fábrica pode se tornar mais rápida e eficiente enquanto permanece orientada por uma formulação ou processo que já não representa o melhor conhecimento disponível.

Nesse contexto, estratégia e desenvolvimento de produtos ganham papel central. Antes de perguntar como produzir mais, a indústria precisa definir o que vale a pena produzir.

Produtos bem-sucedidos também precisam ser questionados

Produtos com baixo desempenho costumam ser revistos rapidamente. Já aqueles que vendem bem podem permanecer praticamente inalterados durante anos.

Esse sucesso comercial pode transformar formulações em estruturas difíceis de questionar.

Para Edson Braga, preservar a identidade de um produto não significa tratar sua receita como imutável.

Ciência, ingredientes, tecnologia, agricultura e hábitos de consumo evoluem. Por isso, empresas podem periodicamente revisar seus principais produtos e perguntar se fariam exatamente da mesma maneira caso fossem desenvolvidos hoje.

Reformulação precisa ir além das tendências

Mudanças de formulação são frequentemente associadas à retirada de açúcar, redução de sódio, inclusão de proteínas ou adoção de ingredientes que ganharam popularidade no mercado.

A proposta apresentada vai além desse tipo de reação.

O desenvolvimento pode começar pela experiência desejada para o consumidor e, a partir dela, reconstruir matéria-prima, formulação e processo.

Em um pão, por exemplo, características como aroma, crocância, textura, fermentação e conservação podem orientar escolhas relacionadas ao trigo, moagem, hidratação, cultura utilizada, temperatura e embalagem.

A receita passa a ser consequência do resultado desejado.

Desenvolvimento de alimentos pode começar antes da fábrica

Essa lógica também amplia o papel da indústria na relação com a agricultura.

Se determinadas características de um tomate, trigo ou outra matéria-prima interferem diretamente no desempenho industrial e na experiência de consumo, o desenvolvimento pode começar ainda na origem.

Agrônomos, produtores, cientistas de alimentos, engenheiros e profissionais de gastronomia podem trabalhar de maneira mais integrada.

A discussão deixa de considerar apenas quantidade produzida e passa a incluir características como qualidade, rendimento, sabor, valor nutricional e desempenho no processamento.

Biotecnologia amplia possibilidades

Fermentação é um exemplo de tecnologia utilizada pela humanidade muito antes da compreensão científica dos microrganismos envolvidos no processo.

Hoje, esse conhecimento pode ser combinado com maior precisão técnica.

Microrganismos, enzimas e processos biológicos podem contribuir para textura, aroma, conservação e outras características dos alimentos.

A tecnologia, nesse caso, não precisa representar necessariamente maior intervenção. Em determinadas aplicações, conhecimento mais preciso pode permitir processos mais controlados e menos agressivos.

Inteligência artificial pode acelerar descobertas

A utilização de inteligência artificial na indústria pode avançar além de dashboards e automação de rotinas.

Ao conectar dados de matéria-prima, formulação, processo, sensores, qualidade sensorial, custo, prazo de conservação e comportamento de vendas, empresas podem identificar relações antes difíceis de perceber.

Modelos podem ajudar a investigar quais variáveis influenciam textura, quais características da matéria-prima estão relacionadas aos melhores lotes ou quais alterações conseguem reduzir custos sem comprometer o produto.

A tecnologia pode, assim, atuar como ferramenta de descoberta.

Algoritmos não definem o que significa “melhor”

O uso crescente de inteligência artificial também amplia uma questão de gestão.

Sistemas podem otimizar aquilo que lhes for solicitado.

Se o objetivo definido for apenas reduzir custos, buscarão caminhos para diminuir despesas. Se for aumentar produtividade, trabalharão sobre velocidade e rendimento.

A decisão sobre quais critérios devem ser preservados continua sendo humana.

Qualidade, sabor, segurança, acessibilidade, conveniência, sustentabilidade e rentabilidade podem entrar em conflito em diferentes situações.

O desafio está em encontrar equilíbrio entre essas variáveis.

Produto precisa estar acima das otimizações isoladas

Dentro de uma empresa, diferentes departamentos possuem objetivos legítimos.

Compras procura custos competitivos. Produção busca produtividade. Logística trabalha por maior eficiência. Qualidade controla riscos. Marketing acompanha as preferências do consumidor e finanças protege a rentabilidade.

O problema surge quando essas decisões são tomadas de maneira isolada.

No final, todas elas se encontram no mesmo produto.

Por isso, a indústria precisa preservar princípios capazes de impedir que ganhos locais comprometam o resultado final entregue ao consumidor.

Recompra continua sendo um indicador decisivo

Marketing, preço, promoção e embalagem podem ajudar a conquistar a primeira compra.

Depois disso, o próprio produto assume papel central.

Quando o consumidor decide comprar novamente, demonstra que a experiência conseguiu sustentar aquilo que foi prometido.

Nesse sentido, a recompra funciona como uma avaliação direta de sabor, qualidade e percepção de valor.

Alimentação cotidiana concentra uma grande oportunidade

A evolução da alimentação não precisa ocorrer apenas pela criação de categorias específicas ou produtos de nicho.

Mudanças em alimentos consumidos diariamente podem gerar efeitos relevantes quando aplicadas em grande escala.

Pizza, pão, massas e outras categorias populares podem receber novas formulações, ingredientes e processos sem perder as características que explicam sua aceitação.

Para Edson Braga, a indústria possui justamente essa capacidade: transformar ajustes relativamente pequenos em mudanças amplas quando milhões de unidades são produzidas.

Escala aumenta responsabilidade

A mesma capacidade de multiplicação que cria oportunidades também aumenta os riscos.

Uma decisão ruim aplicada a poucas unidades possui impacto limitado. Quando repetida milhões de vezes, ganha outra dimensão.

Por isso, crescimento industrial precisa ser acompanhado de critérios mais rigorosos sobre aquilo que está sendo colocado no mercado.

Quanto maior a escala, maior a responsabilidade sobre formulações, processos e padrões escolhidos.

Qualidade pode assumir um conceito mais amplo

Tradicionalmente, qualidade industrial está associada ao atendimento de especificações.

A reflexão propõe ampliar essa análise.

Além de perguntar se um produto está dentro dos parâmetros definidos, empresas podem questionar se ele representa o melhor resultado possível diante do conhecimento disponível naquele momento.

Essa avaliação pode levar a mudanças em matéria-prima, processo, equipamentos, cadeia produtiva e até modelo de negócio.

Tecnologia não substitui propósito

Uma fábrica pode reunir robôs, sensores, visão computacional, inteligência artificial e sistemas de controle altamente sofisticados.

Ainda assim, todo esse investimento perde parte de seu sentido se o produto final não justificar a capacidade instalada.

Para Edson Braga, o futuro da indústria de alimentos dependerá da combinação entre tecnologia e julgamento.

Ciência e prazer, escala e responsabilidade, produtividade e qualidade precisam funcionar de maneira integrada.

Antes de aumentar velocidade, reduzir custos ou automatizar processos, a indústria precisa responder a uma pergunta central:

que alimento merece sair dessa fábrica?

A resposta continuará dependendo de pessoas.

Máquinas podem aprender a fabricar quase qualquer coisa. Decidir aquilo que realmente vale a pena produzir continua sendo uma responsabilidade humana.