Na quinta-feira (5), o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia em meio a uma crise bancária que afeta o país.

Peña, que é conservador, enfrentava um processo de impeachment que contava com o apoio tanto da oposição quanto de membros de sua própria base, o que o deixou em uma posição delicada. Ele é acusado de ter uma participação ativa na falência do banco digital Ueno, que bloqueou o acesso de milhares de correntistas aos seus fundos, sendo que o presidente foi acionista da instituição.

Em um vídeo divulgado, Peña expressou seus sentimentos à população que perdeu o acesso ao dinheiro e justificou sua decisão de renunciar “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na preservação das instituições democráticas”.

“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcioná-los”, declarou.

Hoje pela manhã, o Congresso paraguaio convocou uma sessão extraordinária para discutir o pedido de impeachment, e as diversas bancadas da Câmara dos Deputados manifestaram apoio ao impeachment.

A sessão representava o primeiro passo no processo de impeachment, que ganhou força após a retirada do apoio do atual presidente do Partido Colorado, Horário Cortes, a Peña. Cortes é visto como uma figura chave na ascensão de Peña. Mesmo o presidente do Congresso, Basilio Nuñez, do Partido Colorado, também retirou seu apoio.

Peña, que era próximo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e integrava o Escudo das Américas, grupo de líderes da América Latina alinhados com Trump, também mantinha boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O economista Santiago Peña, que já foi ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes, é o candidato presidencial atual pelo Partido Colorado.

Acusações

Clientes do banco Ueno realizaram protestos em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/AFP

A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outras alegações. Além disso, a acusação sugere que o banco central encobriu irregularidades.

“Nunca antes alguém causou dano a 3 milhões de pessoas em um único dia na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse problema”, afirmou a deputada da oposição Rocío Vallejo durante a sessão, antes da apresentação do pedido.

A denúncia foi formalizada por 35 deputados, que solicitaram ao presidente da Câmara a convocação da sessão extraordinária.

👉 Peña, que também é economista, foi acionista do grupo que controla o Ueno até março do ano passado. O banco detinha aproximadamente 3 milhões de clientes e cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.

Um deputado da oposição no Paraguai exibe um cartaz em um ato que pede o impeachment do presidente Santiago Peña, após o fechamento do banco virtual que provocou a crise bancária, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/Reuters

O Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez, encerrou suas atividades na terça-feira (3), após o banco central iniciar sua liquidação. A autoridade monetária constatou uma falta de recursos para honrar as obrigações da instituição, relacionada a empréstimos feitos a empresas ligadas ao banco.

Em suas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que todos os envolvidos nas irregularidades serão responsabilizados judicialmente, sem exceções. Essa declaração foi feita antes que ele promulgasse uma lei que facilitaria a recuperação dos fundos pelos clientes do Ueno.

“Peço a todos os setores políticos que priorizem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro”, enfatizou.

Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas associadas ao banco. A Justiça também determinou o bloqueio dos bens dos acusados.

Nesta quarta-feira, surgiram relatos sobre falhas em aplicativos de outros bancos, aumentando a preocupação em relação ao sistema financeiro do país.

A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras estavam se esforçando para atender ao grande número de clientes que estavam transferindo suas contas do Ueno, ressaltando que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.

Pessoas formam filas em Assunção, no Paraguai, tentando retirar dinheiro, diante do temor gerado pela crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/AFP