Confira os últimos desdobramentos da crise no Paraguai:
- Na manhã desta quinta-feira (5), o Congresso paraguaio iniciou o processo de votação para impeachment de Santiago Peña e seu vice, Pedro Alliana;
- Logo em seguida, Peña apresentou uma carta de renúncia;
- Entretanto, a Câmara não acatou a renúncia e decidiu prosseguir com o impeachment, com votação unânime;
- O pedido de impeachment contra o vice-presidente, Pedro Alliana, foi rejeitado, permitindo que ele assuma a presidência do país.
A manobra de renúncia foi frustrada, pois a Câmara manteve a abertura do impeachment. Segundo a Constituição, um ex-presidente perde a prerrogativa de renunciar se for submetido a julgamento político e considerado culpado.
Críticos alertaram que aceitar a renúncia de Peña poderia blindá-lo perante a Justiça comum, evitando investigações sobre possíveis crimes ligados à crise do banco ueno.
A Constituição paraguaia determina que cabe ao Congresso a aceitação ou rejeição da renúncia do presidente e do vice-presidente.
A renúncia de Peña
Santiago Peña anunciou sua renúncia em um vídeo, onde expressou suas desculpas à população que ficou sem acesso ao próprio dinheiro. Ele justificou sua decisão “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”.
“Acredito que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, declarou.
Desdobramentos do impeachment
Na manhã de hoje, o Congresso paraguaio se reuniu em sessão extraordinária para discutir o pedido de impeachment. Todas as bancadas da Câmara dos Deputados se manifestaram a favor do impeachment.
Essa sessão foi o primeiro passo no processo de impeachment, impulsionado pela retirada do apoio ao governo por Horário Cortes, atual presidente do Partido Colorado, que é a sigla de Peña. Cortes é considerado um dos mentores de Peña, assim como o presidente do Congresso, Basilio Nuñez, também do Partido Colorado.
Peña, economista conservador, assumiu a presidência do Paraguai em 2023, com mandato previsto até 2028.
Ele é aliado do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e fez parte do Escudo das Américas, um grupo de presidentes da América Latina que compartilham ideais com Trump. Contudo, Peña também mantém boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Acusações contra Peña
Clientes do banco ueno protestaram em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP
A oposição tem acusado Peña de conflito de interesses, manipulação de normas e desvio de recursos previdenciários, entre outras irregularidades. A acusação também sugere que o Banco Central paraguaio encobriu irregularidades.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”, declarou a deputada de oposição Rocío Vallejo durante a sessão, antes do pedido de impeachment.
O pedido foi apresentado por 35 deputados, que solicitaram ao presidente da Câmara a convocação da sessão extraordinária.
Peña e sua relação com o banco
Um deputado da oposição no Paraguai exibe cartaz em ato que pede o impeachment de Santiago Peña após o fechamento do banco virtual, que provocou a crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/ Reuters
👉 Peña, economista, foi acionista do grupo que controla o ueno até março do ano passado. O banco contava com cerca de 3 milhões de clientes e acumulava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O ueno, pertencente ao Grupo Vázquez, encerrou suas operações na terça-feira (3), após o Banco Central iniciar sua liquidação, identificando a insuficiência de recursos para cumprir suas obrigações, em decorrência de empréstimos feitos a empresas ligadas à instituição.
Em suas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que os responsáveis pelas irregularidades serão punidos pela Justiça, sem exceções. Essa declaração foi feita pouco antes de promulgar uma lei que permitirá aos clientes do ueno recuperar seu dinheiro de forma mais ágil.
“Peço encarecidamente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, ressaltou.
Na última quarta-feira, executivos do ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também formalizou acusações contra 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça também ordenou o bloqueio dos bens dos acusados.
Além disso, surgiram relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que intensificou as preocupações sobre a saúde do sistema financeiro do país.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras estavam trabalhando para atender ao grande número de clientes que estavam transferindo suas contas do ueno. A entidade reafirmou que o sistema bancário continua “operando normalmente”.
Em Assunção, pessoas formaram filas para tentar retirar dinheiro em meio ao temor gerado pela crise bancária, no dia 3 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP




