A crise no sistema financeiro paraguaio teve início devido a empréstimos feitos pelo Ueno a empresas associadas ao próprio banco, o que afetou gravemente sua saúde financeira e gerou dúvidas sobre a conexão de Peña com o Grupo Vázquez. (Detalhes a seguir)

Com a falta de recursos para honrar seus compromissos, o banco deixou milhares de clientes sem acesso aos seus depósitos, levando o Banco Central paraguaio a decretar sua liquidação na última terça-feira.

➡️ Peña foi acionista do Grupo Vázquez, que controla o Ueno, até março de 2025, e já fazia parte da sociedade antes de assumir a presidência em 2023. A oposição também acusou o presidente de manipular normas e desviar verbas destinadas a aposentadorias e outros benefícios.

Problemas no Ueno

O Ueno, que atendia cerca de 3 milhões de clientes e era o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, estava enfrentando sérias dificuldades financeiras e sendo investigado por irregularidades.

Após uma análise dos dados financeiros do banco, o índice de solvência — que mede a capacidade de uma instituição de cumprir suas obrigações — caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades reguladoras.

As investigações também levantaram a possibilidade de que o banco tivesse financiado de forma indireta a venda de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, embora o Ueno negasse qualquer envolvimento nessa operação.

⚖️ Em resposta à crise, o Banco Central paraguaio iniciou a liquidação do Ueno com o objetivo de proteger os depositantes e minimizar os impactos em outras instituições financeiras.

O Ministério Público paraguaio também iniciou uma investigação criminal:

  • Oito indivíduos associados ao banco se entregaram às autoridades após mandados de prisão serem emitidos.
  • A Procuradoria formalizou acusações contra 27 pessoas e a Justiça determinou o bloqueio dos bens dos investigados.

O Ueno gerenciava aproximadamente US$ 850 milhões (R$ 4,63 bilhões) em recursos públicos no Paraguai, incluindo fundos do Instituto de Previdência Social (IPS) e outros destinados a aposentadorias.

Na terça-feira, muitos clientes se dirigiram às agências do banco, mas encontraram as portas fechadas. Entre eles, estavam aposentados que recebiam benefícios pelo Ueno.

“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, declarou Manuel Cáceres, morador de Ñemby, em conversa com a agência Reuters. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.”

Medidas para ressarcir clientes

Frente à crise, Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para agilizar a votação de um projeto que permite o uso de recursos do Fundo de Garantia do país para ressarcir os clientes do banco.

O presidente garantiu que essa medida visa assegurar a devolução dos recursos públicos depositados no banco, incluindo valores do IPS e de outros fundos de previdência pública.

Nesta quarta-feira (4), Peña promulgou a legislação que facilitará a recuperação dos recursos pelos clientes do Ueno. Embora não tenha se manifestado publicamente sobre o pedido de impeachment, ele afirmou em uma postagem na rede social X que os envolvidos em eventuais irregularidades devem ser responsabilizados judicialmente, sem exceções.

“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, ressaltou.

Preocupações com o sistema financeiro

A crise também gerou apreensão entre clientes de outros bancos. Nesta quarta-feira (4), surgiram relatos de falhas em aplicativos de instituições financeiras, acompanhados de um aumento nas transferências de recursos do Ueno para outros bancos.

A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que os bancos estavam se esforçando para atender ao aumento da demanda por transferências. A entidade assegurou que o sistema bancário seguia “operando normalmente”.

O Banco Central também enfatizou que a situação do Ueno é um caso isolado e não reflete problemas mais amplos no sistema financeiro nacional.

Peña buscou minimizar os temores de que a crise afetasse outras instituições, afirmando que “este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”. O presidente acrescentou que aqueles responsáveis pela crise “devem ser responsabilizados perante a Justiça, sem exceções e sem privilégios”.

Segundo informações do Banco Central, a Superintendência de Bancos irá designar auditores para avaliar os ativos do Ueno, incluindo bens e valores de empréstimos que a instituição está a receber.

As agências do Ueno permaneceram fechadas enquanto os parlamentares da oposição avançavam no processo de impeachment do presidente Santiago Peña, a quem responsabilizam pela crise bancária provocada pelo colapso da instituição financeira digital em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026.

Saída do presidente do Banco Central

A crise resultou também na renúncia de Carlos Carvallo ao cargo de presidente do Banco Central. Ele havia liderado o Ueno até agosto de 2023. Parlamentares criticavam tanto Carvallo quanto o Banco Central pela supervisão do banco.

Ele já tinha declarado que permaneceria no cargo enquanto as autoridades implementassem as ações necessárias para enfrentar a crise. Ao anunciar sua saída, mencionou que sua decisão ajudaria a diminuir as controvérsias em torno do Banco Central.

Conforme Carvallo, sua renúncia permitiria que o BC e a Superintendência de Bancos atuassem sem interferências de disputas políticas e da pressão da mídia.

Os parlamentares já haviam solicitado a saída dos principais dirigentes do Banco Central após a rejeição de um relatório sobre o Ueno, que foi considerado incompleto pela autoridade monetária.

O episódio também impactou o mercado financeiro. As preocupações envolvendo o Ueno afetaram os preços dos títulos de dívida emitidos pelo banco em dólar, com vencimento em 2031, bem como os títulos da dívida pública paraguaia.

O Ueno, que era controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, passou rapidamente de uma empresa local de tecnologia financeira focada em um nicho de mercado para um banco de médio porte, refletindo uma trajetória semelhante à de plataformas digitais como Monzo e Nubank.

* Informações adicionais foram fornecidas pela agência de notícias Reuters