Fiscalizações da Anvisa identificaram mais de 1,3 milhão de medicamentos injetáveis irregulares apreendidos entre janeiro e abril de 2026; especialistas alertam para riscos à saúde
A popularização das canetas emagrecedoras, utilizadas no tratamento da obesidade e do diabetes, trouxe uma preocupação para médicos e autoridades sanitárias: a circulação de medicamentos falsificados e de procedência desconhecida. Vendidos principalmente pela internet e por canais informais, esses produtos podem representar riscos graves à saúde de quem busca perder peso sem conhecer a verdadeira composição do que está aplicando no próprio corpo.
O problema já mobiliza autoridades brasileiras e internacionais há algum tempo. Em junho de 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre a identificação de três lotes falsificados de medicamento à base de semaglutida, encontrados no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos entre outubro e dezembro de 2023. Segundo a organização, os produtos falsificados podem conter doses incorretas, substâncias desconhecidas ou ingredientes nocivos, comprometendo o tratamento e colocando a vida dos pacientes em risco.
No Brasil, o avanço do mercado irregular também aparece nos números das operações de fiscalização. Em maio de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que inspeções realizadas entre janeiro e abril resultaram na apreensão de mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares e na interdição de oito dos 26 estabelecimentos avaliados. Em uma operação conjunta com a Polícia Federal, realizada em abril, foram identificadas transações irregulares de R$ 4,8 milhões envolvendo tirzepatida em quantidade suficiente para produzir mais de um milhão de dispositivos injetáveis
A preocupação ganhou novos desdobramentos em setembro. No último dia 16, a Anvisa proibiu a importação, o armazenamento, a distribuição, a comercialização, a propaganda e o uso da caneta emagrecedora T36, por não possuir registro sanitário no país. A agência destacou que a segurança e a eficácia do produto não foram avaliadas no Brasil.
De acordo com o médico Fabrício Araújo, especialista em saúde hormonal masculina, obesidade e medicina de longevidade, o principal perigo está na impossibilidade de saber exatamente o que existe dentro de um medicamento falsificado. “Quando uma pessoa compra uma caneta emagrecedora de origem desconhecida, ela não tem como saber se está realmente utilizando o medicamento que acredita ter comprado, muito menos se a dose está correta. Estamos falando de substâncias que atuam diretamente no organismo e que precisam de indicação e acompanhamento médico. Uma dose inadequada ou um produto contaminado pode provocar consequências sérias. Não vale a pena colocar a saúde em risco na tentativa de acelerar o emagrecimento“, alerta o médico.

Entre os problemas associados aos medicamentos injetáveis irregulares estão a possibilidade de contaminação microbiológica, falhas na esterilização e armazenamento inadequado, que podem comprometer a integridade do produto. Para Fabrício, a facilidade de acesso a esses produtos, especialmente pelas redes sociais, pode contribuir para que o paciente subestime os riscos envolvidos no tratamento. “Existe uma diferença muito grande entre utilizar um medicamento com indicação médica e comprar uma caneta porque alguém indicou nas redes sociais ou porque o preço está mais atrativo. Cada paciente tem uma condição de saúde, um histórico clínico e necessidades específicas. O tratamento da obesidade precisa considerar tudo isso. Não podemos transformar um medicamento em um produto de consumo comum, como se qualquer pessoa pudesse utilizar sem avaliação prévia“, explica.
O especialista também ressalta que as canetas emagrecedoras podem fazer parte de uma estratégia eficaz para o controle da obesidade, desde que utilizadas por pacientes com indicação clínica, dentro de um planejamento individualizado e com acompanhamento profissional. “O objetivo do tratamento não é apenas reduzir o número na balança, mas melhorar a saúde, preservar a qualidade de vida e alcançar resultados que possam ser mantidos ao longo do tempo. Nenhum resultado estético justifica o risco de utilizar um medicamento falsificado“, conclui.




